6. GERAL 9.10.13

1. GENTE
2. SADE   GOSTOSO E FAZ BEM
3. POLCIA  O ALGOZ E A VTIMA
4. EDUCAO  LEVANTE CONTRA O MRITO
5. ESPECIAL  O POVO DIANTE DA LEI
6. BELEZA  SORTE GRANDE, LISA  LOIRA
7. TECNOLOGIA  O INCIO DA ERA DO GRAFENO

1. GENTE
THAS BOTELHO. Com Marlia Leoni e Guilherme Dearo

SEMPRE AOS DOMINGOS
As cmeras adoram a beleza forte de RENATA VASCONCELLOS, mas  natural que ela fique nervosa com a transio do sbrio Bom Dia, Brasil para o descontrado Fantstico. "Estou com muitas borboletas voando no estmago. Fico pensando: 'Que loucura,  uma responsabilidade enorme!"', diz ela. Acostumada a acordar diariamente s 4h30 da manh, a apresentadora ter de se adaptar a uma nova rotina. "Ainda estou com o fuso horrio doido, de comissria de bordo", brinca. Sua irm, gmea idntica, tambm ser afetada pela mudana. "Agora, deveremos ser confundidas com mais frequncia. As pessoas acham que ela est brincando quando diz que  outra", diverte-se. A verdadeira, somente aos domingos. 

ROMANCE FORMATIVO
Na novela Sangue Bom, THAILA AYALA  uma patricinha interesseira, mas na realidade vive uma espcie de Bildungsroman, na busca de respostas para as grandes questes que caracterizam a passagem para a vida adulta. Aos 27 anos e com aparncia mais juvenil ainda, ela d apoio a trinta entidades de defesa dos animais e recentemente posou, nua e despojada como uma fora da natureza, para o fotgrafo Yuri Sardenberg, em Fernando de Noronha. "Somos todos uma coisa s", explica sobre a dicotomia ser humano e meio circundante. Desde as grandes manifestaes de junho, tambm participa de um grupo de debate que se rene semanalmente para "pensar o pas". Diz a respeito: "Ainda somos formiguinhas, mas melhor formiguinhas andando do que um elefante empacado". 

A CARINHA DO SUCESSO
Ela  rica, mimada e a mais badalada modelo de passarela do momento. Circulou recentemente com o dolo juvenil Harry Styles. No Brasil para um trabalho publicitrio, a inglesa CARA DELEVINGNE, 21, declarou: 
Suas sobrancelhas so naturais? Elas so maiores do que parecem e naturais! Vm do lado do meu pai, de razes portuguesas. 
Dinheiro fcil e muita festa, a vida de modelo  assim?  um trabalho com imagem glamourizada. Modelos tm de trabalhar muito antes de comear a ganhar dinheiro. 
E as festas? Ficam chatas depois de um tempo, todas iguais. 
Voc teve um papel no filme Anita Karenina. Leu Tolstoi? Seus livros so picos e longos. Sou uma leitora lerda, demoro a ler.

SER QUE PRECISA FAZER O DNA?
Como  que ningum desconfiou antes? Um olhar atento a sobrancelhas, boca, testa e maxilar do jovem advogado RONAN FARROW, filho da atriz MIA FARROW e do cineasta WOODY ALLEN indica considerveis semelhanas com o primeiro marido dela, o cantor FRANK SINATRA. Na verdade, sempre correu um boato abafado sobre a verdadeira paternidade de Ronan (as fotos  direita mostram os dois candidatos a pai com idade aproximada da que ele tem hoje, 25 anos). Agora, foi Mia quem atiou a boataria. Perguntada numa entrevista se Frank Sinatra seria o verdadeiro pai, ela respondeu: "Pode ser".  preciso levar em conta que a atriz passou a alimentar dio eterno a Woody Allen desde quando soube do relacionamento secreto dele com sua rilha adotiva  depois, os dois se casaram e continuam juntos at hoje. Nessa deprimente saga, o prprio Ronan, nascido em 1987, acusou o pai de atos vis e nunca mais falou com ele. Mia surpreendeu o mundo ao aparecer casada com Sinatra, em 1966. Divorciou-se menos de dois anos depois, mas diz que continuaram a se ver. "Todos ns somos, 'possivelmente', filhos de Frank Sinatra", provocou Ronan. Pode ser. 


2. SADE   GOSTOSO E FAZ BEM
A palavra final da cincia: alimentos como o chocolate, o caf e o vinho, associados ao pecado e  culpa, no so bons apenas para a alma, mas tambm para o corpo.
ADRIANA DIAS LOPES E NATALIA CUMINALE

     A partir do momento em que um cidado pr-colombiano, ao redor de 1500 a.C., experimentou pela primeira vez o chocolate lquido leito da amndoa do cacau, a humanidade nunca mais foi a mesma. O chocolate seduziu imperadores, alimentou exrcitos e movimentou economias. A maior reviravolta, no entanto, ocorre agora, com uma serie de descobertas que levam a uma doce constatao: alm de gostoso, o chocolate torna a vida mais longa e saudvel. 

     O extraordinrio efeito proporcionado pelo chocolate  sade  fruto, sobretudo, dos chamados compostos fenlicos. E, boa notcia, essas substncias no se encontram apenas no cacau. Esto presentes em alguns dos grandes prazeres da humanidade  na taa de um bom vinho, numa xcara de caf fresquinho, num prato de feijo fumegante ou num filete de azeite extra-virgem (veja o quadro ao lado). Abundantes nas sementes e na casca de frutos e vegetais, os fenlicos esto envolvidos nos processos mais elementares da natureza. Participam da fotossntese, do cor s plantas e protegem contra agresses externas. Para os seres humanos, os benefcios dos fenlicos so to amplos quanto surpreendentes  e novidades no param de ser anunciadas. O nmero de estudos acerca do impacto de alguns desses compostos sobre o metabolismo humano, segundo o PubMed, o maior banco de dados de pesquisas mdicas do mundo, saltou de 500, em 2003, para mais de 5000, no ano passado. 
     A maioria dos trabalhos ilumina o mais comum dos fenlicos, os flavonoides. Dos cerca de 8000 fenlicos j descritos pela cincia, 6000 pertencem  categoria dos flavonoides. Uma ampla e rigorosa pesquisa feita pelo Instituto Karolinska, na Sucia, divulgada recentemente, avaliou o impacto do chocolate, e suas substncias salutares, na ocorrncia de problemas cardiovasculares. Foram avaliadas 33.372 mulheres, de 49 a 83 anos, e 37.103 homens, entre 49 e 75 anos. Os voluntrios foram acompanhados por dez anos, durante os quais responderam a questionrios minuciosos sobre os hbitos de consumo do chocolate. Ao trmino da pesquisa, brotou uma constatao: comer 63 gramas de chocolate por semana (o equivalente a quatro bombons pequenos) resulta em queda de 20% nas taxas de derrame. Tais resultados podem ser comparados s benesses do exerccio fsico para o organismo. "Os flavonoides atuam diretamente nos mecanismos responsveis pelo bom funcionamento do sistema cardiovascular", diz Raul Dias dos Santos, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor da Sociedade Internacional de Aterosclerose. 
     A lista de benefcios  grande: 
Antioxidao. Os flavonoides impedem a ao dos radicais livres, as molculas txicas associadas ao envelhecimento. Fazem isso de duas formas. Na primeira, eles se ligam a essas partculas, desativando-as. Na outra, anulam as enzimas responsveis pela formao dos radicais livres. 
Reduo do colesterol ruim. Esses compostos fenlicos estimulam o fgado a captar o excedente no sangue do colesterol LDL, o danoso, onde  aproveitado pelas clulas hepticas. Tambm inibem a enzima HMG-CoA redutase, substncia essencial na produo de LDL pelo fgado. O efeito dos flavonoides, nesse caso. equipara-se ao das estatinas, classe de medicamento de primeira escolha no tratamento do colesterol alto. 
Aumento do colesterol bom. Na ponta oposta, os flavonoides estimulam a produo de HDL, o colesterol positivo. Fazem isso ao incrementar a sntese de apolipoprotena A 1, protena que rege a formao de HDL. 
Preservao dos vasos sanguneos. Os flavonoides tm ainda ao anti-inflamatria, evitam a formao de trombos e mantm a sade da parede das veias e artrias. 
     Com tais caractersticas, o chocolate pode ser um timo aliado na preveno das mais diversas condies. Do diabetes  perda de memria, do cncer  manuteno do peso, dos sintomas da menopausa ao envelhecimento da pele. Cai por terra, portanto, o mito de que chocolate d espinha. Isso tudo,  claro, se for consumido com parcimnia. Chocolate  alimento supercalrico. Ainda no se chegou a um consenso sobre a quantidade adequada a ser consumida de modo a tirar todas as suas vantagens, sem o risco de que se transforme em vilo da boa sade. Enquanto um parmetro no  definido, os nutricionistas costumam dizer que 20 gramas de chocolate por dia (ou uma barra pequena)  o suficiente, sem que haja um aumento significativo no total calrico da dieta. Os estudos sobre as vantagens dos flavonoides para o organismo so feitos com os mais diversos tipos de chocolate. Mas o que se tem por certo  que, quanto maior for a concentrao de cacau, maior ser a quantidade de flavonoides. Ou seja, o chocolate ideal  o mais amargo.  Um tablete desse tipo com 45 gramas (ou seja, acima de 65% na concentrao de cacau) possui, em mdia, 54 miligramas de flavonoides. Na verso ao leite (em mdia, 25% de cacau), essa quantidade chega a, no mximo, 13 miligramas. H um ms, a Comisso Europeia permitiu que um dos mais respeitados fabricantes de chocolate no mundo, a sua Barry Callebaut, imprimisse no rtulo de seu chocolate amargo a informao de que 10 gramas dirios podem ajudar a circulao sangunea. E o que dizer do chocolate branco, em cuja formulao no entra cacau? Ele s engorda. Ponto. 
     Os flavonoides foram descobertos por acaso, em 1938. Ganhador do Prmio Nobel de Medicina de 1937, o fisiologista hngaro Albert Szent-Gyrgyi, buscava melhorar o tratamento dos pacientes que sofriam com sangramentos subcutneos. Usava em sua experincia dois tipos de vitamina C, recm-identificada por ele, ambos extrados da casca do limo. O primeiro composto era o nutriente em estado bruto; o segundo, sua verso purificada. Ao administrar as duas substncias a seus pacientes. Szent-Gyrgyi percebeu que a vitamina C pura, para sua surpresa, no controlava o sangramento. A outra, no entanto, teve efeito contrrio. A responsvel era a citrina  como se veria quase uma dcada depois, um flavonoide. Por causa de seu efeito de permeabilizaco sobre as paredes dos vasos sanguneos, tornando-as mais resistentes  sada do sangue, o composto recebeu o nome de vitamina P. Nos anos 50, a cincia comprovou que a citrina no era uma vitamina. Dessa forma, ela foi renegada pelos mdicos e nutricionistas. Com as pesquisas acerca da saudvel dieta mediterrnea, os estudiosos conseguiram demonstrar que por trs dos benefcios de uma alimentao rica em trutas, vegetais, azeite extra-virgem e vinho estavam os flavonoides. A mxima do grego Hipcrates, escrita no sculo V a.C.. "faa do alimento o seu medicamento", nunca foi to atual. 

OS SABORES DE SADE DO CHOCOLATE
 crescente o nmero de estudos que buscam desvendar os benefcios do chocolate  especialmente o amargo  para a sade.

PREVINE AS DOENAS CARDIOVASCULARES
A ingesto regular e moderada de chocolate - amargo ou no - reduz em at 20% o risco de derrame entre homens e mulheres.  uma decorrncia da ao dos flavonoides, substncias com poderes antioxidantes e anti-inflamatrio.

CONTROLA O CNCER
Graas ao flavonoide procianidina, o chocolate impede a progresso de clulas cancerosas.

COMBATE O DIABETES
A epicatequina e a catequina, dois flavonoides abundantes no chocolate amargo, tornam as clulas do organismo mais sensveis  ao do hormnio insulina.

FAZ BEM AO CREBRO
O flavonoide epicatequina do chocolate amargo melhora a memria e a funo cognitiva.

PROTEGE A PELE
Os flavonoides do chocolate amargo protegem a pele contra os efeitos da radiao ultravioleta. E ateno: chocolate no provoca espinhas.

AJUDA A MANTER O PESO
A catequina do chocolate amargo incrementa o ganho de massa muscular e promove a perda de gordura.

O AMARGO QUE  DOCE: Quanto mais amargo o chocolate, maior a quantidade de flavonoides e menor no valor calrico.

AMARGO
Concentrao de cacau: acima de 65%
Quantidade de calorias em 100 gramas: 500

MEIO AMARGO
Concentrao de cacau: entre 40% e 65%
Quantidade de calorias em 100 gramas: 515

AO LEITE
Concentrao de cacau: 25%, em mdia
Quantidade de calorias em 100 gramas: 530

BRANCO
Concentrao de cacau: ZERO
Quantidade de calorias em 100 gramas: 545

FENLICOS  MESA: BOM APETITE!
Os flavonoides que fazem do chocolate um aliado da boa sade pertencem a uma categoria de fitoqumicos conhecida como compostos fenlicos. Em geral, eles so os responsveis pelas cores dos alimentos. Desde a sua descoberta, na dcada de 30, j foram descritos cerca de 8000 tipos de compostos fenlicos. Metade deles enquadra-se na categoria dos flavonoides. A pedido de VEJA, a nutricionista Ana Carolina Moron Gagliardi Miguel, pesquisadora da Universidade de So Paulo, analisou alguns dos alimentos mais consumidos pelos brasileiros  e as pores dirias necessrias para atingir a quantidade ideal de compostos fenlicos.

 RCULA
 Principais compostos fenlicos: Os flavonoides quercetina e kaempferol
 Quantidade diria: Um prato raso de sobremesa
 Comentrio: Assim como outros vegetais verde-escuros, a rcula deve ser consumida com parcimnia. Tais alimentos, em quantidade exagerada, podem interferir na absoro de clcio, mineral imprescindvel para a sade dos osso.

TOMATE
 Principal composto fenlico: O flavonoide quercetina
 Quantidade diria: Sete tomates
 Comentrio: Sete tomates por dia  um exagero  e um perigo. Suas sementes so ricas em oxalato de clcio, substncia que favorece a formao de pedras nos rins. Pores dirias acima de um tomate j podem aumentar o risco da doena

MA-FUJI
 Principais compostos fenlicos: Os flavonoides quercetina, catequina e epicatequina
 Quantidade diria: 3,5 unidades
 Comentrio: Uma dieta saudvel  composta de trs a cinco pores de frutas por dia. Caso a dieta contenha 3,5 mas, devem-se consumir obrigatoriamente outras duas frutas  uma delas ctrica, de modo a garantir o equilbrio vitamnico.

MORANGO
 Principais compostos fenlicos: Os flavonoides quercetina, kaempferol, cianidina e resveratrol
 Quantidade diria: Cinco unidades
 Comentrio: A fruta tem a grande qualidade de conter poucas calorias  uma poro de dez morangos fornece apenas 30 calorias. Para uma dieta saudvel, no entanto,  imprescindvel consumir pelo menos outros dois tipos de fruta 

CH-PRETO
 Principais compostos fenlicos: Os flavonoides quercetina, kaempferol e miricetina
 Quantidade diria: Uma xcara mdia, de 150 mililitros
 Comentrio: O consumo superior a uma xcara mdia de ch pode aumentar o risco de problemas cardacos, sobretudo para quem j tem propenso para a doena, uma vez que a bebida contm altas doses de cafena

FEIJO
 Principais compostos fenlicos: Os flavonoides quercetina e kaempferol
 Quantidade diria: Uma concha mdia
 Comentrio: O consumo de uma concha de feijo ao dia  recomendado como parte de uma dieta saudvel. Deve-se, porm, ter cuidado com seu preparo. Uma concha de feijo cozido apenas com leo contm 100 calorias. J o preparado com bacon e linguia passa a ter 180 calorias

BROCOLIS
 Principal composto fenlico: O flavonoide flavona
 Quantidade diria: 29 flores
 Comentrio: Alm de causar desconforto intestinal, tal quantidade de brcolis aumenta o risco de formao de pedras nos rins, por causa do oxalato de clcio. Em uma dieta equilibrada, o consumo dirio deve ser de uma a duas flores 

VINHO TINTO
Principais compostos fenlicos: Os flavonoides catequina, epicatequina e resveratrol
 Quantidade diria: Uma taa
 Comentrio: A quantidade de vinho necessria para a obteno dos benefcios proporcionados pelos compostos fenlicos est dentro do limite de segurana das recomendaes internacionais. Quem tem diabetes e altas taxas de triglicrides deve evitar o consumo de lcool 

AZEITE EXTRAVIRGEM
 Principais compostos fenlicos: Os flavonoides catequina e epicatequina
 Quantidade diria: Dezoito colheres de sopa
 Comentrio: Tal volume de azeite possui 1800 calorias. Ingerindo essa quantidade, um adulto, no peso ideal, engordaria, em mdia, 1 quilo em quatro dias

CAF
Principais compostos fenlicos: O flavonoide quercetina e o cido clorognico
 Quantidade diria: 0,5 litro
 Comentrio: O consumo dirio de caf no deve ultrapassar quatro xcaras pequenas. Entre os principais riscos da superdosagem esto o desencadeamento de gastrite e a irritabilidade

CH-VERDE
 Principais compostos fenlicos: Os flavonoides quercetina, kaempferol e miricetina
 Quantidade diria: Uma xcara mdia, de 150 mililitros
 Comentrio: A poro de ch-verde necessria para a obteno dos benefcios fenlicos  coerente com a recomendao diria para uma dieta saudvel 

O CARDPIO BRASILEIRO  PRIVILEGIADO
Alimentos tpicos da dieta do pas so fontes riqussimas de compostos que fazem bem  sade

AA
Fruto nativo da regio amaznica, o aa ganhou popularidade nos ltimos dez anos em todo o pas.  rico em antocianina, flavonoide responsvel pela cor roxa da fruta e um poderoso antioxidante. Apesar de calrico (um pote de 250 gramas pode chegar a quase 500 calorias), o aa protege a sade cardiovascular ao reduzir os ndices de LDL, o colesterol ruim

FEIJO-DE-CORDA
Mais consumido no Nordeste, o feijo-de-corda  uma alternativa saudvel ao feijo comum  tambm muito benfico  sade. Rico em fibras, protenas, ferro e vitaminas, o alimento favorece a saciedade, ajuda a combater o colesterol alto e mantm a glicemia em nveis ideais. Combinado com o arroz, ele fornece ao organismo os aminocidos metionina e lisina, essenciais para a formao de massa muscular

CASTANHA-DO-PAR
Semente abundante no norte do pas, sua ingesto  recomendada pelos nutricionistas devido  presena de selnio. O mineral  essencial para combater o envelhecimento celular e proteger as clulas dos radicais livres, as molculas txicas associadas a uma srie de doenas. Rico em gorduras benficas, as monoinsaturadas e poli-insaturadas, o alimento tambm ajuda a baixar o LDL, o colesterol ruim

MANDIOCA
Conhecida tambm como macaxeira ou aipim, a mandioca  rica em amido, um carboidrato do tipo complexo que  digerido e absorvido mais lentamente, o que ajuda no controle glicmico e aumenta a saciedade. Fonte tambm de fibras, a raiz melhora o funcionamento do intestino 

COUVE
 ingrediente praticamente obrigatrio no prato tpico brasileiro: a feijoada. Muito rica em ferro, que previne anemias e  essencial para transportar oxignio para as clulas, a verdura tambm apresenta alto teor de fibras e clcio. Estudos mais recentes indicam que ela possui propriedades anti-inflamatrias, antioxidantes e cicatrizantes 

SARDINHA
Encontrada principalmente no litoral sudeste e sul, a sardinha  rica em mega-3, conhecido por suas propriedades x anti-inflamatrias e por sua capacidade de diminuir o mau colesterol (LDL) e aumentar o bom (HDL). O peixe tambm  fonte de protena, clcio e vitaminas do complexo B. O ideal  consumir peixe duas vezes por semana

AMENDOIM
Rico em gordura monoinsaturada, a mesma presente no azeite de oliva, ajuda na preveno de doenas cardiovasculares. O amendoim tambm possu vitamina E, um poderoso antioxidante que colabora no combate a uma srie de doenas, como o diabetes e as afeces autoimunes. Bastante calrico,  preciso prestar ateno na forma de consumo, evitando os mais salgados e os caramelizados 

O Brasil tem sorte com a dieta. A fabulosa variedade  resultado da contribuio do cardpio indgena,  base de peixes, frutas e vegetais, da alimentao importada da frica e da gastronomia portuguesa   boa e faz bem, como mostram as informaes do quadro ao lado. Nesse aspecto, o do prato a servio da sade, os brasileiros sentam-se melhor  mesa que os americanos das grandes cidades, cujos hbitos estereotipados pressupem doses cavalares de hambrguer, batata frita e cachorro-quente (embora nem todos comam mal,  evidente). Vamos melhor tambm quando nos comparamos aos alemes, com o joelho de porco, o chucrute e o assustadoramente calrico cozido de batatas. No embate de talheres com os franceses, a, sim, o jogo  mais complicado  d-se o nome de "paradoxo francs" ao bom estado de sade da populao, com taxas reduzidas de problemas cardacos e de obesidade, e a magreza das mulheres, em um pas que come muito e adora frequentar restaurantes. O bom pronturio mdico da Frana  resultado, segundo os levantamentos cientficos, do consumo preferencial de vinho (um antioxidante poderoso, inimigo dos radicais livres) e de azeite virgem e extravirgem (aliados do incremento do bom colesterol). 

Fontes: Marciane Milanski Ferreira, professora do curso de nutrio da Unicamp, e Silvia Cozzolino, professora do Departamento de Alimentos e Nutrio Experimental da USP.

NA COZINHA
Os compostos fenlicos se deterioram com facilidade quando os alimentos so expostos ao calor ou depois de cortados ou abertos,  ao do oxignio. Portanto, quanto menor for o contato dos alimentos com esses fatores, menor ser a perda dos compostos.

ALIMENTOS
PORCENTAGEM DE CONSERVAO DOS COMPOSTOS FENLICOS
Crus: 100%
Cozidos no vapor, refogados ou assados: 40%
Fritos: 30%

Fonte: Isabella Mota, nutricionista do Instituto de Metabolismo e Nutrio, em So Paulo.

 VINHO
Depois de aberto, deve ser consumido no mesmo dia. No dia seguinte, por causa da interao com o oxignio, a bebida j perdeu pelo menos metade da concentrao de resveratrol.

 CH
Para a conservao de 100% dos compostos fenlicos, a bebida deve ser preparada a no mximo 60 graus, a temperatura-limite suportada pela pele, sem causar queimadura.

PEQUENO GLOSSRIO
FLAVONOIDE - Do latim flavus, amarelo. O primeiro flavonoide, a citrina, foi extrado da casca do limo. Isolado em laboratrio, em 1938, revelou-se de tonalidade amarelada. Hoje j se sabe que nem todos os compostos so de tal cor. H os arroxeados, azulados e rosados, entre outros. Mas, em geral, os flavonoides no apresentam colorao.
QUERCETINA - Do latim quercus, carvalho. Trata-se do flavonoide mais comum na nossa dieta e , portanto, um dos mais estudados. Est presente em brcolis, cebola e vinho tinto. Foi descoberto na virada dos anos 30 para os 40, na casca de um carvalho.
CATEQUINA- Do snscrito catechu, cacho. O flavonoide mais abundante no chocolate foi encontrado pela primeira vez na palmeira Acacia catechu, cujos frutos do em cachos. H cerca de 27.000 trabalhos sobre os benefcios da catequina.
KAEMPFEROL - Depois da quercetina,  o flavonoide mais comum nos alimentos. Encontrado em ch-preto, chicria e uva, entre outros, foi isolado pela primeira vez na raiz da planta Kaempferia galanga, originria da sia. 

Fonte: Patrcia Sartarelli, professora de qumica da Unifesp.

SOJA, S A FERMENTADA?
     A pergunta acima  uma das mais comuns nos consultrios dos nutricionistas brasileiros. Ela vem de pessoas interessadas em conhecer os reais benefcios antioxidantes da isoflavona, o principal flavonoide da soja. A dvida  procedente. As propriedades do gro fermentado, aquele utilizado na pasta japonesa (miss) e no tofu, segundo a crena, seriam absorvidas mais facilmente pelo organismo. Na estrutura da soja in natura, a maioria das molculas de isoflavona est ligada a molculas de glicose. Durante o processo de fermentao, a soja  submetida  ao de bactrias, que se alimentam de glicose, liberando, portanto, as molculas de isoflavona. Livre, o flavonoide seria aproveitado mais plenamente. Ocorre que o trato intestinal do ser humano  naturalmente habitado por bactrias cuja misso  quebrar as molculas dos alimentos. "No fim das contas, a absoro da isoflavona  muito semelhante, independentemente  da apresentao da soja", diz a nutricionista Nagila Damasceno, diretora do Servio de Nutrio e Diettica do Hospital Universitrio da USP. 
     A isoflavona  o fenlico mais estudado pela cincia. E, por isso,  o nico composto fenlico cuja recomendao de consumo  validada pelas agncias de sade. Preconiza-se a ingesto diria de 100 gramas de gros ou exagerados 300 gramas de soja fermentada. O interesse cientfico pelo composto se deve aos mltiplos benefcios  sade. Alm de todas as aes comuns aos flavonoides, a isoflavona tem uma qualidade suplementar: ser semelhante ao estrgeno, o hormnio predominantemente feminino. Assim, o consumo de isoflavona  indicado para o alvio dos incmodos sintomas do climatrio, como as ondas de calor, a mudana de humor e a dificuldade para dormir. Ou seja, a soja, em gros ou fermentada,  sempre uma aliada da boa sade. 


3. POLCIA  O ALGOZ E A VTIMA
Agora, a polcia j sabe: o mentor do brbaro assassinato de Amarildo  o major Edson dos Santos, o chefe da UPP da Rocinha at ento conhecido pela retido. LESLIE LEITO

     Depois de dois meses, a polcia no tem mais dvidas sobre a trama que levou  morte do pedreiro Amarildo de Souza, 47 anos, morador da favela da Rocinha, na Zona Sul carioca. Desta vez, no foi a bandidagem do morro a autora da barbrie, mas justamente quem deveria cuidar para que ela fosse extirpada do cenrio  a tropa da PM lotada na Unidade de Polcia Pacificadora (UPP). Em uma reserva florestal vizinha  base, a turma que fazia o planto na noite de 14 de julho submeteu o pedreiro a uma sesso de tortura em que se revezavam socos e pontaps e asfixia com saco plstico. Os PMs tentavam pressionar Amarildo a revelar onde o bando da favela havia escondido parte de seu arsenal. Um informante havia dito que ele guardava a chave de um paiol do trfico, o que o pedreiro, insistentemente, negava. Amarildo sofria de epilepsia e sucumbiu em pouco tempo. Seu corpo ainda no foi encontrado. Na semana passada, dez policiais foram denunciados e presos por tortura seguida de morte e ocultao de cadver. Entre eles, o chefe: trata-se do major Edson Raimundo dos Santos, 39 anos, que, em 2012, havia sido conduzido ao posto de comandante da UPP com a misso de moralizar a rea. 
     Conhecido pelo pulso firme com seus subordinados, no dia do crime o major estava ainda mais spero. Na vspera, a Operao Paz Armada, sob sua liderana, havia detido 33 pessoas, mas nenhuma arma fora encontrada. Todas as esperanas recaam sobre Amarildo. Quando seus homens capturaram o pedreiro, ele prprio adiantou-se em receb-lo na UPP. Naquela noite, estava de planto justamente a equipe  qual o major confiava as misses mais espinhosas. O grupo apostava que passaria inclume. As duas cmeras no entorno da UPP estavam desativadas  nem mesmo o GPS do carro de patrulha funcionou naquele domingo. O sinal do rdio, rastreado durante as investigaes, mostrou que o veculo circulou pela cidade logo depois da captura de Amarildo, levando os investigadores a desconfiar que ele tivesse sido morto ali mesmo, mas isso no se confirmou. 
 primeira vista, o major Santos seria o suspeito menos bvio. Com treze anos de PM, ele comeou a consolidar a imagem de oficial-modelo ainda como calouro do curso do Bope, a tropa de elite do Rio de Janeiro, que chegou a integrar. Era o "01" (apelido dado ao melhor aluno da turma), com destaque nas provas de resistncia  certa vez, traou, sem reclamar, uma dzia de ovos crus recm-chocados e sujos, histria que correu geraes de recrutas. O temperamento inflexvel, porm, sempre despertou inimizades. Nos primeiros tempos, ele prendeu a prpria namorada por ter chegado atrasada  aula. Um consenso une a banda que o adora quela que o abomina: o major nunca fez vista grossa s ms prticas dos colegas. No perdoava o rateio de dinheiro e armas apreendidas nas operaes, o chamado "esplio de guerra". Sem ambiente nos batalhes, em 2008 ele cavou uma vaga na equipe destacada pelo Estado para fazer a segurana da surfista Maya Gabeira, filha do ento candidato a prefeito Fernando Gabeira, que havia sido ameaada de morte. De l, foi alado a um cargo de comando na Operao Lei Seca, estreitando o cerco a autoridades e celebridades. 
     O suplcio que Santos impingiu a Amarildo no  um caso isolado em sua trajetria. Na Rocinha, o major instaurou uma rotina de terror. VEJA ouviu moradores que foram alvo de tortura praticada por seus soldados; dezenas de outros registraram os horrores que viveram na delegacia da rea. "Com o Edson sempre foi tiro, porrada e bomba", resume um oficial do Bope do crculo prximo ao major. Duas testemunhas tambm lanaram lama em sua fama de incorruptvel: contaram  polcia ter recebido suborno de Santos para que acusassem traficantes pelo assassinato de Amarildo. Ele nega. A truculncia, quando no a selvageria, era incentivada pelo major sob o pretexto de legitimar a paz. Um desvio imperdovel na carreira do "01". Custou a vida de Amarildo.


4. EDUCAO  LEVANTE CONTRA O MRITO
Em greve, professores do Rio so contra metas e avaliaes

     A ideia de que talento e esforo devem ser reconhecidos e premiados  amplamente difundida por diversos setores da economia. A esse sistema bsico de compensao queles que merecem se d o nome de meritocracia. Nas ltimas semanas, professores de escolas municipais e estaduais do Rio de Janeiro  em greve l se vo mais de sessenta dias  deixaram bem claro que abominam o princpio. Num dos panfletos do Sepe, o sindicato que lidera a revolta por melhores salrios, l-se: "Vamos dizer no s gratificaes por produtividade,  competio,  avaliao". Esses mestres esto se insurgindo contra uma poltica fincada sobre a premissa de que as escolas precisam ter metas claras de aprendizado, ser avaliadas por elas e valorizadas por seu bom cumprimento.  um campo que no d margem  subjetividade. Os resultados so medidos com base na nota dos prprios alunos em exames oficiais. Os mestres que no atingem o esperado ganham o mesmo; j os que ajudam sua escola a rumar em direo  qualidade recebem um bnus. No foi s o Rio que implantou no pas a meritocracia na educao. Estima-se que 20% das escolas pblicas brasileiras j se guiem por sistemas semelhantes  ao que tudo indica, criando um ambiente favorvel  excelncia. 
     Os professores do Rio esto nas ruas para defender exatamente o oposto: salrio igual para todos. A isonomia  uma bandeira histrica dos sindicatos da educao  no s no Brasil, mas tambm em pases como Mxico e Chile. "Quanto mais forte  o movimento sindical, maiores so o corporativismo e a averso ao mrito", diz a especialista Maria Helena Guimares. No parece razovel ir contra a ideia de distinguir os mais eficientes, especialmente em um campo cuja essncia  justamente formar as pessoas e valorizar sua evoluo. Nos ltimos dias, o protesto recrudesceu  com direito at a black blocs pegando carona e policiais extrapolando os limites  como resposta ao plano de carreira da prefeitura, recm aprovado pela Cmara dos Vereadores. O governo deu aumento de 15,3%; os grevistas querem mais. No que no tenham direito de ir s ruas brigar por melhorias, mas  preciso cham-los  racionalidade. Se os professores fossem atendidos plenamente em seu pleito, estaramos falando de salrios que chegariam  isso mesmo  a 61.667 reais. E o ensino que  bom... 
NATHLIA BUTTI


5. ESPECIAL  O POVO DIANTE DA LEI
A Constituio fez do Brasil um pas democrtico, mas suas fraquezas intrnsecas impedem que ela desfrute, ao completar 25 anos, da aura de outras Cartas, como a americana
GABRIEL CASTRO E DANIEL JELIN

     As fotos que ilustram esta pgina mostram dois momentos da histria recente em que o Congresso Nacional foi tomado por pessoas comuns. A primeira data de 1 de fevereiro de 1987: enquanto no plenrio da Cmara se instalava a nova Assembleia Constituinte, do lado de fora centenas comemoravam nas ruas e escalavam a cpula desenhada por Oscar Niemeyer.  segunda  um flagrante da noite de 17 de junho de 2013, quando uma multido marchou por Braslia para protestar, gritar palavras de ordem, pedir "mudana". A primeira foto fala da esperana de que uma nova Constituio pudesse lanar as bases de um pas democrtico e moderno. A segunda lembra que a esperana s se cumpriu em parte. No h dvida de que a democracia avanou no Brasil no ltimo quarto de sculo e de que a Constituio teve um papel essencial nesse processo. Mas  significativo que na mirade de cartazes levados s ruas durante as manifestaes de junho, e na enxurrada de mensagens postadas nas redes sociais, a Carta raramente tenha sido mencionada como um ponto de referncia simblico. Quando ela se tornou assunto, foi de modo negativo: em resposta queles que expressavam na rua o seu repdio  corrupo e  classe poltica, o governo sugeriu, de maneira funesta, que se reformasse o sistema poltico por meio de uma Constituinte especfica. Entre o esquecimento dos manifestantes e o perigoso arroubo do Executivo, fica claro que a Constituio promulgada em 5 de outubro de 1988 no desfruta, em seu 25 aniversrio, da aura quase sagrada de que se reveste, por exemplo, a Carta dos estados Unidos. Por que isso aconteceu? Em grande parte, devido s suas fraquezas intrnsecas. O que no significa que ela no deva ser, para alm de respeitada, defendida.
     Em todas as 341 sesses consumidas na redao da Carta Magna, o fantasma do regime militar permaneceu na assembleia ao lado dos constituintes. Isso deixou uma marca profunda no texto final, que no se limita a elencar alguns direitos fundamentais. Para assegurar que os abusos da ditadura no se repetissem, os constituintes crivaram o texto de dispositivos "garantistas". Pelas mesmas razes, o ambiente era propcio para que todas as vozes e todos os pleitos que gozassem de alguma representatividade  e tivessem sido calados nos anos anteriores  fossem acolhidos. Hoje senador, Paulo Paim (PT-RS) admite que se esforou para incluir no texto o mximo de dispositivos trabalhistas: "Eu tinha clareza de que tudo aquilo que ficasse gravado, s com uma emenda  Constituio, que exige trs quintos dos votos, poderia ser retirado. Por isso, trabalhei muito para que o tratamento do tema fosse o mais amplo possvel", diz ele. A declarao de Paim reflete bem o esprito com que os constituintes abordaram sua tarefa e explica por que a Constituio pode ser descrita como prolixa (a dcima mais extensa do mundo), segundo dados do projeto Comparative Constitutions (CCP), paternalista (apenas dez fixam mais direitos) e quase surrealmente detalhista: ela incluiu at mesmo um pargrafo dedicado  administrao do Colgio Pedro II, no Rio de Janeiro. Como muitos direitos previstos necessitam de leis para se materializar, criou-se um enorme nus de regulamentao: ainda hoje, 112 dispositivos aguardam nessa fila. 
     Os mais graves pecados foram cometidos na rea econmica. O exemplo notrio  o artigo 192, do captulo que trata da ordem financeira. Ele fixou em 12% o teto da taxa de juros no Brasil. "Foi um desastre", lembra o economista Malson da Nbrega, que era ministro da Fazenda em 1988. "A Constituio reforou o dirigismo um ano antes da queda do Muro de Berlim e incorporou preconceitos infantis contra o capital estrangeiro, a empresa privada e os direitos de propriedade." Nos anos que se seguiram  promulgao, os artigos sobre economia e tributao se chocaram continuamente com a realidade. E o pragmatismo, felizmente, acabou prevalecendo sobre o pensamento mgico. A maior parte das 74 emendas aprovadas desde 1988 tem a ver com esses dois temas. No comeo dos anos 90, por exemplo, durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, os dispositivos que limitavam a entrada de capital estrangeiro foram derrubados, permitindo revolues como a da telefonia. Segundo um estudo recente realizado pelo gabinete do constituinte e atual senador Francisco Dornelles (PP-RJ), a lgica tributria instituda pela Carta de 1988 foi totalmente desmontada nos ltimos 25 anos. Ah, sim: o artigo sobre os juros de 12% foi expurgado em 2003. 
     Seja pela necessidade de desfazer o que no faz sentido, seja pela necessidade de regulamentar o que foi deixado em aberto, o fato  que a Constituio brasileira nunca atingiu a plena eficcia em seus prprios termos.  instrutivo, mais uma vez, o paralelo com a Constituio americana  exemplo mximo de Carta "sinttica". Promulgada em 1789, ela cuidou unicamente de fixar um sistema de governo, criando pesos e contrapesos para a atuao de cada um dos trs poderes, e de  estabelecer os limites da atuao do governo central, assegurando a autonomia dos estados. A famosa Bill of Rights (Carta de Direitos), coleo de dez emendas que tratam das garantias individuais, s veio  luz em 1791  e mesmo assim depois de muito debate sobre a convenincia de incluir ou no regras desse tipo na Constituio. O desenho austero faz com que a Constituio americana mantenha seu vigor, apesar dos mais de dois sculos de vida. 
     VEJA pediu a mais de 100 polticos, empresrios, intelectuais e artistas brasileiros que falassem sobre a Carta de 1988 (os testemunhos podem ser lidos na edio para tablet e no site de VEJA). Muitos reconhecem avanos no texto que enterrou o arbtrio do regime militar, mas a nota que soa com maior frequncia  a do ceticismo em relao a ela. "A nossa Constituio d margem a muita confuso", diz o cantor Ney Matogrosso. "Para mim, a Constituio  coisa para ingls ver  e ingleses nem tm Constituio", diz o filsofo Luiz Felipe Ponde. "A Constituio de 1988 foi um avano, um marco, um smbolo da conquista de todos os brasileiros. Mas j estou querendo saber  da nova Constituio, de dois mil e...", brinca o humorista Fbio Porchat. 
     A Constituio no  perfeita. Mas tambm  verdade que redigir uma Constituio  trabalho para momentos histricos especiais  aqueles em que uma sociedade passa por ruptura ou transio. Fora dessas circunstncias, o trabalho de uma Assembleia Constituinte, em vez de expressar uma vontade comum, construda em meio ao rudo e a duras penas, pode expressar to somente a vontade do grupo poltico momentaneamente mais forte. "Soa aventureiro e at mesmo irresponsvel clamar por uma Constituinte ou querer colocar um termo nesta Constituio", diz o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. A Carta de 1988  o marco da redemocratizao do pas, e nem seus crticos questionam sua legitimidade. Bem ou mal, o texto proporcionou o mais longo perodo ininterrupto de democracia que o pas j atravessou. No  o caso, portanto, de ceder  tentao de reform-la em grandes blocos, muito menos de deitar abaixo o edifcio inteiro.  o caso de depur-la, segundo os mecanismos que ela mesma prev. O especialista em direito comparado americano Tom Ginsburg, um dos mentores do CCP, lembra que a Carta de 1988 j nasceu sob crticas. "Alguns estudiosos previam que ela no duraria nem cinco anos", diz. "Ao contrrio, ela tem ajudado o pas a construir uma base de governana e pelo menos parcialmente motivou iniciativas para tomar a sociedade mais justa. H um longo caminho pela frente, mas, por ser flexvel e contar com mecanismos para a sua reforma, o Brasil pode seguir com ela nessa caminhada." 

A CONSTITUIO BRASILEIRA ...
De 189 Constituies analisadas pelos pesquisadores do projeto Comparative Constitutions  mantido pela Universidade de Illinois (EUA), com o apoio do GoogLe , a Carta brasileira se destaca pela extenso, pela quantidade de direitos que procura assegurar (frequentemente sem sucesso) e pela variedade de poderes que confere ao Executivo, Veja abaixo: 

...PROLIXA
10 lugar  Brasil 51.368 palavras
1 lugar  ndia 146.385 palavras
ranking leva em conta as verses para o ingls. Em portugus, a edio atualizada da Carta brasileira, com 74 emendas, tem 68.739)

...PATERNALISTA
De 117 direitos mapeados pelos pesquisadores, a Carta brasileira fixa 76. Apenas dez pases vo alm
11 lugar  Brasil  76
1 lugar  Bolvia  88

...CENTRALIZADORA
A Carta brasileira confere ao governo seis de sete instrumentos de poder mapeados pelos pesquisadores
23 lugar  Brasil
Apenas 22 Cartas do ainda poderes ao governo central.

... JOVEM
Incio da vigncia da atual Constituio. A durao mdia mundial  de dezenove anos
1 lugar  Estados Unidos  1789
89 lugar  Brasil  1988

CATLOGO BSICO DE CONSTITUIES
Conhea cinco tipos fundamentais de legislao e os pases que os representam

NO SISTEMATIZADA 
Constituies informais
REINO UNIDO
No regime legal britnico, no h um texto soberano. A Constituio emerge de um conjunto de princpios e normas distribudos por diversos documentos  como leis, tratados e decises judiciais. Outros pases sem uma Constituio formal so Israel, Arbia Saudita e Nova Zelndia

SINTTICA
Constituies minimalistas
ESTADOS UNIDOS
H 224 anos em vigor, a Constituio americana  um modelo de norma sucinta e eficaz. Seus sete artigos e 27 emendas estabelecem as relaes entre os trs poderes, fixam as bases do sistema federativo, preservando a autonomia dos estados, e asseguram liberdades do indivduo. Outros exemplos do tipo so as Constituies da Islndia (1944) e da Frana (1958)

AUTORITRIAS
Constituies comunistas e bolivarianas
CHINA (1982) e VENEZUELA (1999)
Tpica das ditaduras comunistas, a Constituio chinesa chancela o regime de partido nico, restringe direitos individuais e inibe a livre organizao da economia. Os mesmos princpios so encontrados nas leis mximas da Coreia do Norte (1972) e de Cuba (1976). Mais recentes, as Cartas "bolivarianas" tambm cedem  tentao autoritria, a comear pela da Venezuela  imitada pelas do Equador (2008) e da Bolvia (2009)

TEOCRTICA
Constituies islmicas
IR (1979)
O modelo  adotado em pases que reconhecem como soberana a sharia  lei islmica inspirada no Caro. Com isso, qualquer previso constitucional acaba submetida  tradio religiosa  e a seus intrpretes. Embora haja graus distintos de radicalismo, a norma geral nesses territrios so a baixa (ou nenhuma) tolerncia s outras religies e as restries impostas as mulheres. Constituies desse tipo tratam mais de deveres do que de direitos. Outros exemplos: Emirados rabes Unidos (1971), Paquisto (2002) e Catar (2003) 

DETALHISTA
Constituies extensas e garantidoras
BRASIL (1988)
A carta de 1988  um exemplo de Constituio extensa e dirigista. Cdigos desse tipo acabam no sendo plenamente aplicados: o inchao do texto legal dificulta a familiarizao das pessoas com seus direitos e gera ambiguidades que comprometem sua implementao. No caso do Brasil, parte da explicao vem da histria: a nfase e a multiplicidade de direitos fixados em lei so uma resposta aos abusos do regime militar. Outras Cartas prolixas so a do Mxico (1917), a da Nigria (1999) e, a mais extensa do mundo, a da ndia (1949)

PARA REVIVER A HISTRIA
Sai em livro uma cpsula do tempo do que foi a Constituinte

     Com edio e coordenao do jornalista Marcos Emlio Gomes, chega s livrarias nesta semana o livro A Constituio de 1988, 25 Anos  A Construo da Democracia & Liberdade de Expresso: o Brasil Antes, Durante e Depois da Constituinte. Iniciativa dos institutos Vladimir Herzog e Palavra Aberta, a obra  um adequado, bem ilustrado e coerente painel histrico dos fatos daquela quadra gloriosa da vida pblica brasileira. Por mais imperfeito que tenha resultado o texto final da Constituio de 1988, sua promulgao por uma Assembleia Constituinte democraticamente reunida e trabalhando sob o signo do entendimento entre correntes ideolgicas contrrias foi mesmo uma conquista. O livro trata a epopeia da Constituio como um feito memorvel, fruto de trabalho hercleo, com desfecho incerto. H um clima de suspense no ar at a catarse libertadora pela promulgao do texto que, abrindo as portas de uma catica oficina parlamentar, arrancou a democracia brasileira de l. 
     A obra dos institutos Vladimir Herzog e Palavra Aberta celebra em especial, a comear pelo ttulo, a reinstituio no Brasil, depois de 21 anos de regime militar, da liberdade de expresso, princpio basilar das sociedades democrticas.  a partir dessa liberdade que todas as outras ganham existncia plena. O livro  um exemplo vivo do exerccio da liberdade de expresso e seus corolrios, a diversidade de opinio, o choque de ideias que sempre produz mais luz do que calor. O coordenador reservou a seo final da obra para a publicao de textos que encomendou a diversos protagonistas daqueles tempos de coragem, crena nas virtudes da democracia e, claro, de certa ingenuidade tpica dos heris "enlouquecidos de liberdade", a criao potica que o presidente Tancredo Neves usou para falar de Tiradentes. Um dos convidados para colaborar no livro foi Eurpedes Alcntara, diretor de redao de VEJA. Alcntara enfatiza o arcasmo do pensamento econmico dominante entre a maioria dos constituintes  salvos da derrocada total nesse campo pela presena, entre eles, de Delfim Netto, Jos Serra, Francisco Dornelles e Roberto Campos. 


6. BELEZA  SORTE GRANDE, LISA  LOIRA
Cabelos invejveis aumentam o patrimnio de modelos e atrizes mundo afora e em especial no Brasil, um mercado que movimenta quase 5 bilhes de reais por ano em produtos do ramo.
THAS BOTELHO

     Que mulher no gostaria de ter a lendria cabeleira mechada de Gisele Bndchen, a escorrida cortina capilar de Paolla Oliveira ou os bem tratados fios loiros, recentemente tosados, de Grazi Massafera? Os cachos inexistentes na natureza de Dbora Nascimento e a cascata morena de Juliana Paes tambm provocam um bocado de suspiros. Cabelos naturalmente bonitos e espetacularmente bem cuidados por profissionais do embelezamento no so a norma  por esse motivo tantas mulheres famosas ganham caches altos para fazer campanhas publicitrias. Nem por isso as mulheres comuns que lutam contra componentes genticos e climticos desfavorveis  cabeleira dos sonhos deixam de tentar reproduzir o visual invejvel de modelos e atrizes. Se  impossvel ter as pernas de Gisele ou a cinturinha de Paolla, uma combinao intensiva de produtos, tratamentos, escova e secador acabar resultando em algo mais aproximado dos cabelos ideais. Ou nisso acreditam as consumidoras brasileiras que usam em mdia sete produtos regularmente, compram quinze frascos de xampu por ano e gastam 35 minutos por dia para domar a cabeleira, movimentando anualmente 4,8 bilhes de reais. 
     "Produtos para cabelo fazem parte de um mercado que dificilmente passar por uma crise", avalia Hugo Rodrigues, vice-presidente no Brasil da Publicis, parte do maior conglomerado de agncias de publicidade do mundo. Um sinal de vitalidade do ramo: no total do mercado, a fatia destinada a produtos para os cabelos saiu da 18 posio em 2010 para o sexto lugar no primeiro semestre de 2013. Mulheres famosas anunciando novos produtos impulsionam as vendas, e nenhuma delas impulsiona mais do que Gisele Bndchen. Desde que seus invejveis cabelos  sem falar em todo o resto  passaram a divulgar uma grande marca de xampus e condicionadores, em 2007, a participao da linha no mercado brasileiro se multiplicou por 10. Especialistas do setor calculam que a modelo tenha atualmente um contrato anual de cerca de 3 milhes de reais com a Pantene, maior do que o cache em torno de 1 milho de dlares da cantora americana Jennifer Lopez pago pela LOral, grande conglomerado global de produtos de beleza  pode at parecer pouco para uma celebridade como ela, mas campanhas assim tambm rendem um benefcio indireto em matria de visibilidade. Em pesquisas feitas com consumidoras de todo o pas, Gisele  de longe a mulher famosa mais citada como exemplo de beleza. Um dos maiores contratos de produtos para os cabelos no Brasil  o  da apresentadora Xuxa, de aproximadamente 800.000 reais. Quando ela tingiu de preto os cabelos historicamente loiros, sua fundao recebeu tambm 2 milhes de reais como doao beneficente. Os contratos aumentam com a exposio de atrizes em novelas, mas algumas beldades tm uma espcie de cadeira cativa. Outros exemplos: Grazi Massafera (contrato em torno de 400.000 reais), Paolla Oliveira (350.000), Juliana Paes (280.000) e Dbora Nascimento (250.000). 
     Alm de gostarem de arrumar os cabelos e experimentar novos produtos, as consumidoras brasileiras tendem  liberalidade em seu uso. O cabeleireiro Jlio Crepaldi, que j participou de convenes dedicadas aos cabelos em diversos pases como representante da marca Wella, faz o seguinte clculo: as brasileiras usam em mdia uma quantidade de xampu equivalente ao tamanho de duas ou trs moedas, volume que cai para uma moeda e meia no caso das japonesas e uma moeda entre as europeias. Clima, hbitos culturais, comprimento e dimetro dos cabelos influenciam a quantidade e a frequncia do uso de produtos. O mercado brasileiro  hoje o segundo maior do mundo em consumo de ps-xampus  como diz o nome, tudo aquilo que se usa depois da lavagem. "H pouco mais de cinco anos falava-se apenas do trio xampu, condicionador e mscara de tratamento. Hoje h leave-in, xampu a seco, leo de reparao, de hidratao e muitos outros", explica Alberto Blanco, diretor-geral de marketing da LOral Brasil. A variedade se deve em parte aos eternos dilemas capilares femininos: quem tem cabelos lisos quer volume, quem tem fios eriados sonha em dom-los. Como os cabelos enrolados ou crespos so mais frequentes, aumentam os produtos controladores. As tcnicas de alisamento tambm contribuem para isso. "Na busca pelo cabelo cada vez mais liso, muitas mulheres aderiram aos novos processos, que, por demandarem cuidados especiais, estimularam o crescimento do segmento de ps-xampu", diz Marcela Mariano, diretora da rea equivalente da Unilever. Quando tratam os cabelos e se aproximam mais do modelo almejado, as mulheres mencionam em pesquisas que se sentem mais confiantes, sofisticadas e bem-humoradas. No pas das escovas de chocolate, de cristal, de orqudea, de cana-de-acar e de carbocistena, sem contar a catinica, toda mulher tem direito a seu dia de Gisele. Ou a algo muito parecido. 

TRABALHADAS NA ESCOVA
Com uma mdia de sete frascos no banheiro (dois xampus, dois condicionadores e trs produtos de tratamento), as brasileiras dedicam-se muito a cuidar dos cabelos, mudar sua cor e dom-los. Mesmo que isso consuma um tempo.

Colorizadas
So as que mais pintam os cabelos no mundo; 86% das brasileiras j usaram tintura
Das partidrias da natureza alterada, 74% vo para tons de loiro
Principais motivos apresentados:
1 - o novo tom aumenta a autoconfiana
2 - d sofisticao
3 - melhora o humor

Alisadas
Em 2004, diminuir a queda era a principal preocupao em matria de cabelo. Alis-lo estava em sexto lugar, numa lista de sete. Hoje, as duas prioridades ocupam lugares invertidos.
58% das brasileiras j fizeram algum tipo de alisamento
No total, s 32% tm fios completamente lisos, mas 56% aspiram a isso

Atrasadas
Gastam em mdia 35 minutos arrumando os cabelos antes de sair de casa 
64% j se atrasaram para algum compromisso por causa do tempo consumido na tarefa
51% deixam de sair se no tiverem tempo de arrumar os cabelos

Fontes: Unilever, P&G, Kantar e Carla Bianchi Comunicao.


7. TECNOLOGIA  O INCIO DA ERA DO GRAFENO
Um novo material derivado do grafite impulsiona uma revoluo na indstria em virtude de suas y propriedades nicas:  impermevel, translcido, malevel, mais resistente que o diamante e o melhor condutor eltrico conhecido.
FILIPE VILICIC E FERNANDA ALLEGRETTI

 comum que revolues cientficas e tecnolgicas nasam em silncio, sem alarde. A protagonizada pelo grafeno, derivado do grafite  e, portanto, tambm de carbono , comeou com uma frase impenetrvel para leigos: "'Descrevemos filmes de grafite monocristalinos, com poucos tomos de espessura, mas estveis em condies ambientes, e de notvel alta qualidade". Assim os fsicos russos Andr Geim e Konstantin Novoselov apresentaram o grafeno, em artigo publicado em 2004 na prestigiada revista cientfica Science. A descoberta lhes rendeu o Nobel de Fsica em 2010. Trs anos depois do achado, em 2007, ao cabo de minuciosos estudos em laboratrio para determinar quais eram as propriedades do material, a dupla escreveu outro texto, mais ambicioso, no qual decretava o deflagrar de uma nova era: "A corrida do ouro pelo grafeno comeou". 
     Geim e Novoselov tiveram certeza desse caminho de futuro ao detectar as caractersticas exclusivas do grafeno. Nada que conhecemos  mais resistente que ele. Tambm no existe melhor condutor eltrico ou um slido to leve. Acrescente-se o fato extraordinrio de o grafeno ser translcido e ultraflexvel. Trata-se do nico material a combinar todas essas caractersticas simultaneamente. Suas propriedades chamaram a ateno da indstria. A gama de produtos que podem se beneficiar do grafeno  vasta (veja o quadro ao lado): avies e carros mais leves e econmicos; smartphones com telas flexveis e baterias possveis de ser recarregadas em cinco segundos: cabos de internet que podem armazenar on-line 500.000 msicas em um segundo; filtros capazes de eliminar qualquer impureza (incluindo o sal) de lquidos, o que poderia transformar, hipoteticamente, o mar em uma reserva de gua potvel. 
     H imensas apostas, quase todas perfeitamente executveis. Na prxima quinta-feira, 10, 74 empresas e universidades da Unio Europeia divulgaro um plano, nomeado de Graphene Flagship (em traduo livre do ingls, bandeira do grafeno), de investir 1,4 bilho de dlares em pesquisas em dez anos.  um projeto que vem sendo pensado desde 2011, logo aps-Geim e Novoselov ganharem o Nobel por seus trabalhos nos laboratrios da Universidade de Manchester, na Inglaterra  a instituio promete montar at 2015 o grupo mais avanado de pesquisas de grafeno, ao custo de 100 milhes de dlares. Integram a iniciativa multinacionais europeias como a Nokia, a Airbus e a Philips, alm de outros respeitados centros acadmicos europeus. S o governo ingls promete destinar outros 100 milhes de dlares para a investigao. Diz o fsico brasileiro Antonio Hlio Castro Neto, diretor do Centro de Pesquisas de Grafeno da Universidade Nacional de Singapura (veja trechos da entrevista na pg. 117): "A sia e os Estados Unidos entraram nesse extraordinrio avano com atraso em relao  Europa e agora aceleram o passo para se destacarem na corrida pelo promissor mineral". Inaugurado em 2010 com verba de 30 milhes de dlares para estudos, o centro de Singapura  o primeiro ncleo de pesquisas localizado na sia. Neto tambm foi convidado a integrar o primeiro ncleo de estudos de grafeno do Brasil, o MackGrafe, da Universidade Mackenzie, em So Paulo. Com investimento de 15 milhes de dlares, o MackGrafe deve ficar pronto em julho do ano que vem e ter foco nos estudos de como o grafeno pode ser usado em sistemas de fibra ptica  o que possibilitaria, por exemplo, a implementao de cabos de trfego de dados para ter uma internet 100 vezes mais rpida. "O Brasil costuma perder corridas tecnolgicas por entrar atrasado no jogo", diz o fsico Eunzio de Souza, coordenador do MackGrafe. "Desta vez temos a chance de largar com pouco tempo de diferena e, quem sabe, competir de igual para igual com pases desenvolvidos." 
     O grafeno  estudado desde 1859, quando cientistas desconfiavam da existncia dos chamados cristais 2D, elementos to finos que no so considerados pela fsica como materiais de trs dimenses. Tentaram-se mtodos complexos para extrair esses cristais 2D, como depositar o grafite em substncias corrosivas ou esfoli-lo em alta temperatura. A existncia dos cristais 2D s seria definitivamente confirmada em 2004, quando Geim e Novoselov isolaram partculas de grafeno pela primeira vez utilizando um mtodo simples, mas criativo. Contou a VEJA Novoselov: "Fomos rudimentares ao utilizar uma fita adesiva simples para esfoliar o grafite para capturar o grafeno. Mas assim conseguimos chegar aos melhores cristais possveis do material". O nico problema do mtodo dos cientistas russos  a impossibilidade de aplic-lo em larga escala. Na indstria, estuda-se utilizar outras formas de extrao, como submeter pelotas de grafite  oxidao e depois colocar o material em uma soluo aquosa para ser esfoliado com equipamentos ultrassnicos. Apesar das tentativas, por enquanto ainda no se achou um mtodo ideal para a produo. 
     O grafeno foi o primeiro material 2D a ser isolado em laboratrio.  to fino que para comear a ser levado em conta por cientistas como uma substncia de trs dimenses  preciso empilhar dez camadas de grafeno. Depois dele, fsicos utilizaram os mesmos mtodos para obter uma nova famlia de tipos de cristal 2D, como o nitreto de boro. O grafeno tambm integra uma categoria que ficou popularmente conhecida como a dos "supercarbonos",  qual pertencem outras substncias extradas de materiais de carbono, como os nanotubos de carbono. Pontua o fsico Daniel Cunha Elias, da Universidade Federal de Minas Gerais, que estudou por trs anos ao lado dos dois ganhadores do Nobel: "O que faz o grafeno se destacar dos outros materiais  o fato de ele ser o nico a combinar caractersticas aparentemente paradoxais, como ser ultrarresistente, mas supermalevel". 
     So essas propriedades que o pem na lista de prioridades industriais. Por enquanto, h poucos produtos com grafeno sendo vendidos.  o caso da raquete de tnis da marca Head, utilizada pelo tenista srvio Novak Djokovic, o atual nmero 1 do mundo no ranking da ATP. Com um aro composto parcialmente de grafeno, a raquete  mais leve que as tradicionais. Nas mos de um profissional de altssimo desempenho, de total domnio dos movimentos do tnis, como Djokovic, isso representa mais velocidade e potncia nos golpes disparados contra a bolinha. Esto em andamento experincias destinadas a criar prottipos em indstrias to variadas quanto a de eletrnicos, a aeronutica, a automobilstica e a mdica. "Fazia muito tempo que no surgia um material de tamanho potencial para revolucionar o mundo", diz Novoselov. "Pensando nos atributos fantsticos do grafeno  possvel imaginar que ele dar origem a incontveis inovaes." Empresas como a IBM e a Nokia estudam a criao de tablets com telas resistentes a queda e translcidas, alm de computadores de mesa 100 vezes mais rpidos, construdos com chips dotados de circuitos de grafeno. A Boeing e a Airbus planejam avies cujas estruturas so parcialmente compostas do elemento, o que reduz em 10% o peso das aeronaves. Pode parecer pouco, mas isso diminui em igual medida o consumo de combustvel nos voos, um dos principais gastos das companhias areas. 
     Por enquanto,  preciso misturar o grafeno a outras substncias, como cobre e alumnio, para utiliz-lo. Estima-se que em vinte anos haver tcnicas capazes de extrair o grafeno mais puro de forma barata e t-lo sozinho na composio de produtos muito mais eficientes. Se depender do ritmo das pesquisas, no deve demorar. Se at 2007 o nmero de estudos relacionados ao tema beirava a insignificncia, em 2011 foram registrados 10.000 trabalhos cientficos sobre o grafeno em todo o mundo. Em 2012 houve o registro de 2204 patentes de prottipos de produtos com o material apenas na China e outros 1754 nos Estados Unidos. 
     O grafeno  exemplo de como a cincia busca alternativas, nem sempre fornecidas diretamente pela natureza, para garantir o avano tecnolgico da humanidade. Antes do sculo XIX, o ao era um material carssimo, de preo equivalente ao de joias. Produzido pela purificao do ferro, era obtido por meio de processos qumicos difceis de ser realizados, e por isso as indstrias preferiam o ferro puro nas manufaturas. Em 1856, o engenheiro ingls Henry Bessemer inventou um processo de oxidao de toneladas de ferro em barris para obter o ao, o que levou  reduo do preo em at 90%. O ao, material que, como o grafeno, no era encontrado solto no ambiente, se tornou matria-prima essencial, usado na construo de carros, navios, armas, arranha-cus. Hoje o complicado processo de extrao do grafeno faz dele uma preciosidade cujo grama custa 100 dlares  o dobro do preo do ouro. "Mas isso porque ele acaba de ser descoberto. Os avanos nas pesquisas vo barate-lo a ponto de se tornar um produto comum", diz o fsico Daniel Cunha Elias. Inaugura-se um novo tempo de um material que pode tirar do silcio o posto de estrela mais brilhante da tecnologia de ponta. 

AS CARACTERSTICAS DO GRAFENO
Quarenta vezes mais forte que o ao,  translcido e flexvel
Permite a criao de smartphones e tablete com telas finas como papel sulfite, transparentes, dobrveis e resistentes a choques e quedas.

Pesa 0,77 miligrama por metro quadrado
A Boeing estuda agregar grafeno  estrutura de avies para diminuir o peso das aeronaves em 10%  o que teria como efeito uma reduo equivalente no gasto com combustvel
Avio atual  400,0 toneladas
Avio com grafeno  360,0 toneladas

Como sua resistncia ao fluxo de eletricidade  quase zero,  um condutor eltrico 1000 vezes mais eficiente que o cobre e 100 vezes melhor que o silcio
Baterias eltricas hoje feitas de nanofibras de carbono durariam trs vezes mais se seus circuitos fossem de p de grafeno.
Microchips de silcio teriam processamento 100 vezes mais rpido se construdos com o novo material

 impermevel
Se uma garrafa de plstico no  uma barreira eficiente contra gases como hlio e oxignio, uma com grafeno isolaria o contedo de qualquer contaminao  o que triplicaria, por exemplo, o prazo de validade do leite armazenado na embalagem

H TRS FORMAS DE OBTER O GRAFENO
1 Por esfoliao mecnica: usa-se fita adesiva para extrair o grafeno de peas com menos de 1 milmetro de espessura de grafite
2 Pelotas de grafite passam por um processo de oxidao e depois so colocadas em soluo aquosa para ser esfoliadas por um mtodo ultrassnico que extra as camadas de grafeno
3 Pela decomposio qumica do grafite em um vapor de metano aplicado ao material depositado sobre cobre em alta temperatura

POR QUE  TO RARO
Nenhum dos mtodos de extrao  aplicvel na produo em larga escala.  preciso utilizar microscpios adaptados e confiar no olho treinado de fsicos e qumicos experientes para localizar o grafeno nos blocos de grafite.
Gastam-se pelo menos 30 minutos para conseguir poucos gramas do material 
150 gramas de grafeno puro, com espessura equivalente a 1 milionsimo da de um fio de cabelo, custam 15.000 dlares

O HOMEM RECRIA A NATUREZA
O grafeno no existe solto no ambiente  para extra-lo  preciso utilizar processos qumicos. Sua descoberta  herana de uma tradio da fsica e da qumica de mexer na estrutura de substncias naturais em busca de novos elementos. Alguns exemplos:

AO
De onde se extrai: Do ferro
Como se cria: Por um processo pelo qual se usa oxidao para eliminar impurezas e o excesso de molculas de carbono de ligas de ferro fundido
O que se faz com ele: Trens, carros, pontes e turbinas de hidreltricas

ALUMNIO
De onde se extrai: Da bauxita
Como se cria: O mtodo  similar aos procedimentos qumicos de obteno de grafeno  a bauxita  mergulhada em soda custica para retirar o minrio alumina, que, aps filtrado, resulta em alumnio
O que se faz com ele: Embalagens, partes de automveis, alm de ser muito usado na construo civil

RDIO
De onde se extrai: Do urnio
Como se cria: Esmaga-se o urnio em mquinas e depois ele  dissolvido em cido sulfrico. O resduo  tratado com produtos qumicos, o que resulta em uma soluo de brometo de brio e rdio, que posteriormente passa por um processo de cristalizao e filtrao 
O que se faz com ele: J foi utilizado em pastas de dentes, cremes de cabelo e em tratamento de cncer  at descobrirem que  altamente txico

SILCIO PURO
De onde se extrai: Da slica
Como se cria: O silcio lquido  extrado a partir do aquecimento a 2000 graus da slica
O que se faz com ele:  conhecido por compor chips de computadores

UMA CHANCE PARA O BRASIL
O fsico brasileiro Antonio Hlio Castro Neto dirige o Centro de Pesquisas de Grafeno em Singapura e prepara a inaugurao de um laboratrio de estudos do material no pas. As enormes reservas de grafite representam uma rara oportunidade de o Brasil alimentar inovaes  e no apenas import-las. 

Por que o senhor escolheu estudar grafeno em Singapura? 
Sou tambm professor em Boston, nos Estados Unidos. Mas a verdade  que os americanos tm perdido espao na cincia para outros pases, em especial os asiticos. Existe uma fuga de crebros dos Estados Unidos. Na sia, principalmente em naes como China, Coreia do Sul e Singapura, h um ambiente mais propcio a estudos que exigem pensamento de longo prazo. O grafeno ter resultados substanciais em algumas dcadas, mas o asitico entende que  preciso investir pesado agora para ser lder no futuro. 

O Brasil tem chance nessa disputa? 
Os brasileiros veem cientistas apenas como professores, no como empreendedores que podem, com suas descobertas, mudar o mundo. Nisso somos radicalmente diferentes dos asiticos.  uma viso que prejudica muito o desenvolvimento tecnolgico do pas. Esse  um dos motivos de sermos um grande exportador de produtos brutos e um grande importador de produtos finalizados, feitos com base nos mesmos materiais que vendemos para que sejam refinados fora do Brasil. Faltam cientistas para patentear inovaes tecnolgicas nacionais, e os pesquisadores brasileiros que querem seguir nessa linha costumam se mudar para pases onde  possvel fazer isso. 

Ainda d tempo de mudar esse cenrio desfavorvel? 
 claro. E o grafeno  um bom caminho para esse movimento. O Brasil tem uma grande vantagem por ser dono de enormes reservas de grafite, do qual se obtm o grafeno. Que tal se desta vez, em vez de exportar o grafite para outros criarem o grafeno, decidirmos criar o grafeno no pas?  um processo mais inteligente e lucrativo. O centro de pesquisas que inauguraremos no ano que vem em So Paulo, dentro da Universidade Mackenzie, tem esse objetivo. 


